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No vídeo sobre bissexualidade no Ted Misty Gedlinske diz que pessoas bissexuais, entre outras coisas, tem grande propensão ao abuso de álcool.
E hoje, ao deitar na cama estava pensando em como quando eu bebia na adolescência e início da fase adulta eu bebia de perder o controle. Isso sempre foi uma questão séria na minha vida. Eu tinha amnésia alcóolica com bastante frequência. Passava mal em qualquer lugar. Ficava louca. Ao contrário do geral, que é começar rápido e ir diminuindo a quantidade. Quanto mais eu bebia, mais eu queria beber. O excesso. E é claro que não foi sempre pela mesma razão. Mas me doeu fundo perceber que bebi muito para ter coragem de flertar com meninas.
Naquela janelinha minúscula que aparecia de vez em nunca, em um show com aquela amiga gay ou em uma festa enquanto os outros não estavam por perto. Tinha que escanear o espaço com a velocidade da luz para não dar na cara que eu estava querendo flertar com uma mulher. E quando achasse alguém que achava que era gay, vinha a vergonha o medo a insegurança. Mas nada comparado ao que eu sentia em relação aos meninos. Aliás com meninos sempre fui a senhora segurança. Era um medo de ser quem eu era. Vergonha dos meus pensamentos - nada no sentido religioso - mas um desconcerto comigo mesma. Uma sensação de que eu tinha que esconder aquilo a todo custo mas o troço queria sair de mim de qualquer jeito. Um desejo incontrolável (imagina a mente de uma adolescente de 17 anos que vive em um relacionamento sério com o chuveirinho... exatamente). Mas eu não era gay! E isso eu sabia porque gostava muito de garotos. Então como podia estar com tanto desejo por gurias? Precisava fazer escondido, ou melhor, conseguir arranjar um jeito de chegar à uma situação na qual me fosse possível flertar com "segurança". E para isso, como diria um querido tio, "tome cachaça"!
Me doeu muito perceber que isso aconteceu inúmeras vezes. Porque essa janelinha não acontecia na escola, ela não acontecia no cursinho de inglês, na praia com o grupo da escola, naquela troca de olhares no ônibus... nesses momentos eu era sempre hétero. E nem sofria por isso. Aquela era a eu real. A outra ficava adormecida. Mas às vezes... ela resolvia voltar. Já tive cada crush! Certa vez fiz um curso de dois meses. O que era aquela aquela mulher!? Eu tinha problemas de concentração. Ela era linda e inteligente. Eu me sentia super intimidada por ela. Quando eu trocava duas palavras tipo dizer "tchau" e receber de volta um "tchau" de volta, eu ficava com um misto de "será que ela percebeu?" e êxtase! De qualquer forma ela não era gay. Aliás isso é outra bosta que dificulta horrores. Se vc não sabe nem o que você é. Como é que vai saber quem é o quê?!?!
MAs estou feliz que chorei por ter percebido uma raiz profunda responsável pela minha péssima relação com o álcool. Precisava dessa catarse. E junto com isso veio uma necessidade urgente de entender tudo isso. De estudar sobre e entender porque a bissexualidade como uma forma de ser 100% eu mesma, só está surgindo na minha vida agora. Como isso passou despercebido por mim? Eu, que tenho dentre minhas melhores amigas, mulheres lésbicas. Inclusive tive crush numa delas quando era adolescente... (ãhn?! É eu sei...)
Enfim, para muitos pode parecer óbvio. Mas para mim não foi, e agora que é, estou assustada com como eu achava que era livre e na verdade me negava uma parte enorme de mim diariamente. E como isso me fazia mal e afetou minha forma de estar no mundo de cuidar de mim mesma e as consequência negativas de comportamentos altamente destrutivos não só para mim como para amigos e familiares. Parte de mim está feliz e outra com sangue nos olhos. Quantos porres, crises de ansiedade, noites mal dormidas, medo de falar, frustração e vergonha de algo dentro de mim que eu não sabia bem o que era.
Estou em uma situação privilegiada, e sei que assim como eu existem muitas pessoas. Mas se agente não se descobrir não podemos nem enfrentar a sociedade com a nossa verdade.
Então pensa, veja vídeos, leia. Se você sentiu ou sente desejo por ambos os sexos, se permita. Porque é uma falsa ideia a de que estamos seguros ao amar só o sexo oposto. Nossa segurança e a segurança das pessoas a nossa volta está na nossa coragem em ser diverso, ser nós mesmos e a luta é longa, mas é linda!