Conversando com uma amiga sobre se engajar mais em um projeto social, ela me disse "eu quero fazer mais do que só falar". Se queremos mudar as leis a educação a forma com que nos relacionamos ou qualquer coisa nesse mundo, precisamos agir além da palavra, isso é imprescindível. Nosso poder de voto é um excelente exemplo. Por isso, entendo perfeitamente o ponto dela quando diz querer fazer mais. No entanto, esse "só" da frase me soou como se falar fosse menos efetivo do que outras formas de agir, quando é também uma forma super potente de se fazer revolução. Basta pensar nas pilhas de livros queimados em regimes fascistas, onde se destrói os veículos de fala para que o conhecimento não se difunda. Ou censura ao teatro, livros e filmes em sistemas digamos "conservadores". Levada por essas reflexões, desde que ouvi essa frase tenho pensado muito sobre a importância da conversa pois, foi ao falar e ao ouvir a fala de uma pessoa próxima a mim que a minha revolução pessoal começou de verdade.
Foi ao ouvir outra mulher falar do estupro que sofreu, que eu entendi e aceitei que eu sofri abuso sexual quando eu tinha sete anos de idade. Eu já tinha lido e ouvido sobre diversos abusos, já tinha visto atrizes que eu admiro contarem suas histórias, mulheres se abrindo em posts na internet, assisti documentários e li livros em que abusos e estupros ocorrem aos montes. Isso sem contar nas centenas de chamadas e matérias em jornais. E eu me via desenvolvendo muito senso crítico sobre tudo isso, mas era isso, senso crítico. Porque mesmo sentindo raiva, tristeza e indignação, sem perceber, criei entre mim e o que me aconteceu o que chamo de "vidro de aquário". Que é um vidro através do qual se pode ver tudo mas ele é tão grosso que você se sente seguro em relação ao que está do outro lado. E então, eu sentia muita empatia mas não sentia conexão pessoal com a história dessas mulheres.
Talvez eu não tenha dito nada antes por eu ser uma criança quando tudo aconteceu, pensar que muito tempo já havia se passado e por isso "deixa para lá". Talvez por ele não ter me machucado fisicamente. Talvez pela minha capacidade, já adulta, de ficar íntima de alguém não ter sido muito afetada. Talvez por tudo isso e mais um monte de outras razões eu fui me dizendo que não fazia sentido falar sobre o assunto, que não era nada de mais, que eu dei sorte, que meu caso não foi sério.
Foi apenas quando outra mulher, que passou por algo que para mim é mensurável como muito pior do que o que me aconteceu me olhou no olho e disse que o que eu sofri também foi péssimo, que me dei permissão para aceitar que eu fui vítima de abuso. Permissão para aceitar aquilo como parte de mim e dos meus traumas. Que me permiti sofrer pelo que aconteceu e não mais sentir vergonha daquilo. E acima de tudo fez o mundo parar a minha volta pois, a partir daquele momento eu não era mais uma espectadora crítica, eu era também parte da história. E isso mudou absolutamente tudo para mim. O meu vidro finalmente se quebrou.
Naquele dia nos abrimos em uma conversa muito difícil e por vezes densa mas cheia de empatia, coragem, e carinho. E de uma importância que eu mesma não consigo mensurar pois ela me transformou e continua a transformar. Ali, na confiança que outra mulher depositou em mim ao dividir sua história olhando no meu olho, pela primeira vez em 24 anos eu verbalizei sobre o que aconteceu comigo e olhei o ocorrido de frente. Foi como um estalo. E pela primeira vez eu entendi e senti que o que se passou foi absurdo, foi nojento, foi cruel e ao mesmo tempo muito mais comum do que, mesmo com todas as leituras de livros, blogs e matérias de jornal, eu podia imaginar. A partir daquele dia eu parei de entender a injustiça, agora eu a estava sentindo.
Às vezes, antes dessa conversa, eu pensava no assunto. Mas ele vinha e eu o fazia ir embora logo. Era doloroso pensar e também não me sentia digna de sentir essa dor e sofrimento quando outras mulheres passaram por coisas piores. Desde de pequena fui educada para ter bons modos, agregar, ser simpática, ser política, oferecer ajuda, ser uma mocinha... tudo isso, junto aos privilégios de cor, dinheiro e amor me cegaram para o que aconteceu de ruim. E eu coloquei aquilo em um lugar de vergonha e culpa. Afinal como pode uma pessoa com tanto, reclamar da vida? E pior, trazer tamanho desconforto, raiva, tristeza e/ou medo para outras pessoas quando ela contasse isso? Mocinhas não geram desconforto, não faz parte do papel. Hoje sei que esses privilégios me fizeram muitas vezes não enxergar o quão injusta, hipócrita e cruel é a nossa sociedade e quão próximos os problemas estão de nós, à nossa volta imediata não importa quem você seja. Porque talvez não tenha acontecido com você mas muito provavelmente aconteceu com alguém que você conhece. E eu nunca saberia, se uma mulher do meu convívio e que eu nunca ia imaginar ter passado pelo que passou não tivesse cortado a barreira do silêncio.
A mulher que generosamente dividiu sua história comigo, sem saber, me libertou. E desde que entendi (e ainda entendo) as formas nas quais os episódios de abuso que sofri naquele momento, e em outros ao longo da vida, me impactaram, converso com outras mulheres no meu entorno direto de forma ainda mais aberta, vulnerável e cheia de coragem. E para minha surpresa, durante essas trocas descobri que o número de mulheres que eu conheço e que sofreu algo (e não estou falando do cara no ônibus esfregando o pênis na nossa bunda ao passar) é imensamente maior do que eu podia imaginar. E dói, me dá raiva, por vezes choro quando alguém me diz "eu também". Mas, uma coisa incrível acontece na maioria das vezes. Em algum momento, nos reconhecemos uma na outra, na nossa experiência em comum dentro dessa sociedade tão complexa e por vezes cruel. E nisso, damos a mão uma à outra e nos fortalecemos, trocamos ideias de livros, filmes e ativistas. Debatemos sobre sociedade patriarcal, educação de nossos pais, importância de saúde mental e urgência de uma educação antirracista. Falamos sobre a necessidade de enxergar as mulheres a nossa volta com um olhar cada vez mais acolhedor, para que elas também se sintam fortalecidas. E assim, possamos quebrar essas barreiras que nos fazem ficar caladas quando estamos entre amigos, família ou colegas por achar que estamos sozinhas em nosso inconformismo com o mundo do jeito que está.
Penso que, na medida que cada um puder, que façamos mais sempre. Que usemos nosso poder de compra para investir no que acreditamos, que cedamos e também criemos espaços para quem precisa ser visto e ouvido, que façamos passeatas, petições e nos eduquemos o tempo todos através da experiência do outro. Mas incentivo aqui, na medida que cada um puder, que sempre busquemos junto a tudo isso as conversas verdadeiras olho no olho. Para que possamos cada vez mais identificar e sermos identificadas por aquelas que nos rodeiam, e assim possamos fortalecer a existência de nossas ideias e vontades para esse mundo.
