quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Vidro de aquário


Conversando com uma amiga sobre se engajar mais em um projeto social, ela me disse "eu quero fazer mais do que só falar". Se queremos mudar as leis a educação a forma com que nos relacionamos ou qualquer coisa nesse mundo, precisamos agir além da palavra, isso é imprescindível. Nosso poder de voto é um excelente exemplo. Por isso, entendo perfeitamente o ponto dela quando diz querer fazer mais. No entanto, esse "só" da frase me soou como se falar fosse menos efetivo do que outras formas de agir, quando é também uma forma super potente de se fazer revolução. Basta pensar nas pilhas de livros  queimados em regimes fascistas, onde se destrói os veículos de fala para que o conhecimento não se difunda. Ou censura ao teatro, livros e filmes em sistemas digamos "conservadores". Levada por essas reflexões, desde que ouvi essa frase tenho pensado muito sobre a importância da conversa pois, foi ao falar e ao ouvir a fala de uma pessoa próxima a mim que a minha revolução pessoal começou de verdade. 

Foi ao ouvir outra mulher falar do estupro que sofreu, que eu entendi e aceitei que eu sofri abuso sexual quando eu tinha sete anos de idade. Eu já tinha lido e ouvido sobre diversos abusos, já tinha visto atrizes que eu admiro contarem suas histórias, mulheres se abrindo em posts na internet, assisti documentários e li livros em que abusos e estupros ocorrem aos montes. Isso sem contar nas centenas de chamadas e matérias em jornais. E eu me via desenvolvendo muito senso crítico sobre tudo isso, mas era isso, senso crítico. Porque mesmo sentindo raiva, tristeza e indignação, sem perceber, criei entre mim e o que me aconteceu o que chamo de "vidro de aquário". Que é um vidro através do qual se pode ver tudo mas ele é tão grosso que você se sente seguro em relação ao que está do outro lado. E então, eu sentia muita empatia mas não sentia conexão pessoal com a história dessas mulheres. 

Talvez eu não tenha dito nada antes por eu ser uma criança quando tudo aconteceu, pensar que muito tempo já havia se passado e por isso "deixa para lá". Talvez por ele não ter me machucado fisicamente. Talvez pela minha capacidade, já adulta, de ficar íntima de alguém não ter sido muito afetada. Talvez por tudo isso e mais um monte de outras razões eu fui me dizendo que não fazia sentido falar sobre o assunto, que não era nada de mais, que eu dei sorte, que meu caso não foi sério. 

Foi apenas quando outra mulher, que passou por algo que para mim é mensurável como muito pior do que o que me aconteceu me olhou no olho e disse que o que eu sofri também foi péssimo, que me dei permissão para aceitar que eu fui vítima de abuso. Permissão para aceitar aquilo como parte de mim e dos meus traumas. Que me permiti sofrer pelo que aconteceu e não mais sentir vergonha daquilo. E acima de tudo fez o mundo parar a minha volta pois, a partir daquele momento eu não era mais uma espectadora crítica, eu era também parte da história. E isso mudou absolutamente tudo para mim. O meu vidro finalmente se quebrou.

Naquele dia nos abrimos em uma conversa muito difícil e por vezes densa mas cheia de empatia, coragem, e carinho. E de uma importância que eu mesma não consigo mensurar pois ela me transformou e continua a transformar. Ali, na confiança que outra mulher depositou em mim ao dividir sua história olhando no meu olho, pela primeira vez em 24 anos eu verbalizei sobre o que aconteceu comigo e olhei o ocorrido de frente. Foi como um estalo. E pela primeira vez eu entendi e senti que o que se passou foi absurdo, foi nojento, foi cruel e ao mesmo tempo muito mais comum do que, mesmo com todas as leituras de livros, blogs e matérias de jornal, eu podia imaginar. A partir daquele dia eu parei de entender a injustiça, agora eu a estava sentindo.

Às vezes, antes dessa conversa, eu pensava no assunto. Mas ele vinha e eu o fazia ir embora logo. Era doloroso pensar e também não me sentia digna de sentir essa dor e sofrimento quando outras mulheres passaram por coisas piores. Desde de pequena fui educada para ter bons modos, agregar, ser simpática, ser política, oferecer ajuda, ser uma mocinha... tudo isso, junto aos privilégios de cor, dinheiro e amor me cegaram para o que aconteceu de ruim. E eu coloquei aquilo em um lugar de vergonha e culpa. Afinal como pode uma pessoa com tanto, reclamar da vida? E pior, trazer tamanho desconforto, raiva, tristeza e/ou medo para outras pessoas quando ela contasse isso? Mocinhas não geram desconforto, não faz parte do papel. Hoje sei que esses privilégios me fizeram muitas vezes não enxergar o quão injusta, hipócrita e cruel é a nossa sociedade e quão próximos os problemas estão de nós, à nossa volta imediata não importa quem você seja. Porque talvez não tenha acontecido com você mas muito provavelmente aconteceu com alguém que você conhece. E eu nunca saberia, se uma mulher do meu convívio e que eu nunca ia imaginar ter passado pelo que passou não tivesse cortado a barreira do silêncio.

A mulher que generosamente dividiu sua história comigo, sem saber, me libertou. E desde que entendi (e ainda entendo) as formas nas quais os episódios de abuso que sofri naquele momento, e em outros ao longo da vida, me impactaram, converso com outras mulheres no meu entorno direto de forma ainda mais aberta, vulnerável e cheia de coragem. E para minha surpresa, durante essas trocas descobri que o número de mulheres que eu conheço e que sofreu algo (e não estou falando do cara no ônibus esfregando o pênis na nossa bunda ao passar) é imensamente maior do que eu podia imaginar. E dói, me dá raiva, por vezes choro quando alguém me diz "eu também". Mas, uma coisa incrível acontece na maioria das vezes. Em algum momento, nos reconhecemos uma na outra, na nossa experiência em comum dentro dessa sociedade tão complexa e por vezes cruel. E nisso, damos a mão uma à outra e nos fortalecemos, trocamos ideias de livros, filmes e ativistas. Debatemos sobre sociedade patriarcal, educação de nossos pais, importância de saúde mental e urgência de uma educação antirracista. Falamos sobre a necessidade de enxergar as mulheres a nossa volta com um olhar cada vez mais acolhedor, para que elas também se sintam fortalecidas. E assim, possamos quebrar essas barreiras que nos fazem ficar caladas quando estamos entre amigos, família ou colegas por achar que estamos sozinhas em nosso inconformismo com o mundo do jeito que está. 

Penso que, na medida que cada um puder, que façamos mais sempre. Que usemos nosso poder de compra para investir no que acreditamos, que cedamos e também criemos espaços para quem precisa ser visto e ouvido, que façamos passeatas, petições e nos eduquemos o tempo todos através da experiência do outro. Mas incentivo aqui, na medida que cada um puder, que sempre busquemos junto a tudo isso as conversas verdadeiras olho no olho. Para que possamos cada vez mais identificar e sermos identificadas por aquelas que nos rodeiam, e assim possamos fortalecer a existência de nossas ideias e vontades para esse mundo. 
 


sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Ciclo

Meu ciclo está se fechando para um novo começar..

E não bastasse ter nascido inquieta, essa inquietação tem aumentado nos últimos dias. Não sei se é a chegada do aniversário, não sei se é o acúmulo de situações, sentimentos, pensamentos e informação.... só sei que a cada dia sinto que tenho mais a dizer. E converso muito com pessoas ao meu redor, o tipo de papo que gosto, olho no olho ou e mail por e mail. Me expressar publicamente sem saber quem é esse "público", me faz mal. Na  tentativa de trazer um pouco daquilo que eu acredito ou questiono já virei "presa fácil" para aquele que eu acreditava ser um amigo me tratar com total falta de respeito e empatia, ou para um estranho fazer afirmações infundadas sobre mim... e isso me fez mal, me irritou e me angustiou. Por isso, sempre admirei muito quem tem a coragem de colocar em posts aquilo que pensa. Vejo, em sua esmagadora maioria, mulheres colocando suas lutas e buscas de forma pública. Hoje sei que apoiar essa forma de se expressar já é um posicionamento, e que eu devo buscar ampliar o meu espaço de luta ao invés de tentar lutar como os outros. Além disso, escrever de forma sucinta me é uma tarefa quase impossível, logo, o que eu penso dificilmente cabe num post...

Bom, com ciclo se fechando parece mais é que mais caminhos se abrem. Mais questionamentos, mais dúvidas e em algumas esferas, mais conhecimento e mais certezas. Uma delas é a de que tem muita coisa boa nesse mundo mas ele também está muito, muito errado. E essa certeza vem de coisas que ouço, observo e hoje, muitas que vivo. Esse ano foi sem sombra de dúvidas o mais complexo, difícil, educativo e intenso que já vivi. 

Desde sempre me julgo muito. Ansiedade, medo do que o outro pensa, medo do que eu penso sobre o que acho que o outro pensa de mim (tem gente que vai entender isso)... Valores, família, cultura, sociedade, preconceitos, religião, relacionamento. E de repente mudou tudo! Ou melhor, me mudei, fisicamente, para o outro lado do mundo. E aí encontro de família vira facetime. Papo com amigos se tornam mensagens de whattsapp. A sociedade é outra com outras questões. A cultura vira um exercício diário de se adaptar e aprender sobre. Preconceitos mudam de formato e você passa a perceber melhor os seus ao criticar os preconceitos absurdos dos outros. E por aí vai, ou está indo... Tudo mudou ao meu redor. E junto com tanta mudança de cunho pessoal veio também o choro pela política do Brasil, pela escolha consciente (não faltaram conversas, avisos e pedidos de revisão de crenças políticas baseadas em fatos!) de tantos conhecidos, amigos e familiares. Que nadando num mar de individualismo deram força aos seus medos e/ou preconceitos e colocaram nosso país na situação que está. Como lidar com isso? Tanto amor e tanta raiva e ressentimentos misturados e intensificados pela distância física. Justamente essa que faz uma conversa sobre política, por telefone, trazer o risco do fim de uma amizade ou meses sem se falar novamente.

O fato é que no último ano tomei uma surra de mim mesma. Uma surra de vara de marmelo de ter que encarar meus medos, anseios, vontades, raivas, e inseguranças se quisesse me sentir bem e saudável novamente. 

E hoje, apesar de todo o receio, quero falar, preciso falar.

Por que falar de política é assunto delicado. Sobre suicídio é assunto pesado. Depressão é frescura. Sexualidade é tabu. Feminismo é mimimi. Racismo, "não existe".
E nessa de não incomodar o espaço do outro, ou tentar salvar nossas relações a gente não discute. e não troca com quem discorda da gente. Ou melhor faz isso mas já chega brigando e acusando. Para mim, o lugar dessas conversas continua não sendo na internet. Porque me faz muito mal de formas que eu sei que não me são saudáveis. E por isso mesmo, busco conversas reais quando estou com as pessoas e tenho tido trocas intensas e lindas nessa minha militância de buscar ser um exemplo das coisas que acredito. Erro horrores. Mas também acerto. E acho que esse é o melhor que posso fazer até ficar mais forte e melhor na retórica.

Mas por hoje quero dizer algumas coisas que acho e outras que sei sobre esse mundo nesse momento. 

- Feminismo é necessário. Através dele mulheres estão se abrindo umas com as outras e questionando e conversando sobre diversos assuntos importantíssimos. Entre eles relacionamento abusivo, finanças, sexualidade, maternidade real (inclusive de não gostar de ser mãe), orgasmo, mercado de trabalho, racismo, padrão de beleza, saúde mental, saúde física, abuso sexual, políticas públicas... 
Ah mas te seus problemas.... claro que tem! Mas tem muito mais sororidade, apoio, amizade e principalmente busca por soluções. Não somos uma massa organizada com uma mentora mestra que nos diz o que fazer e como fazer. Somos seres pensantes que estão questionando os padrões que de alguma forma oprimem nossa existência e a de outros. E essa troca é fundamental para nosso crescimento como sociedade. Então apenas para de ser ignorante por opção e se não quiser ajudar, pelo menos não atrapalhe.

- Você conhece muito mais mulheres e homens que já foram abusados sexualmente do que você imagina. Seja na infância, adolescência ou adulto. Lembrando que abuso sexual não é só estupro.
"Ah eu saberia" Não! Não saberia, essa não é uma conversa que pais nem filhos são educados a ter. E precisamos mudar isso urgentemente. 

- Racismo existe. E culpa branca também, eu já senti muito essa culpa como se todos os problemas do racismo fossem meus por ser branca (também conhecido como arrogância...), mas percebi que o que eu tinha era medo de falar e agir (aquele eterno medo de errar). Até porque já falei merda achando que estava falando algo bom... e até hoje carrego minhas palavras com profunda vergonha. Então converse com seus amigos negros (e se não tem, se questione sobre isso). A gente precisa parar de ter medo de se posicionar, mas para isso precisamos saber como nos posicionar. E consuma material de pessoas negras, apoie empresas de pessoas negras, escute suas questões e deixe sua vivencia do lado de fora quando for ouvir. Porque vai ter muita coisa ruim sendo dita sobre pessoas brancas... e eles estarão falando a verdade deles, então aceita e busca mudar a você ou o mundo a sua volta. O incomodo de se sentir atacado pela narrativa do outro é infinitamente menos importante do que a vida do outro correr risco diário simplesmente por existir. 

- Tem muito mais gente gay, lésbica, bi, trans, queer a nossa volta do que nós sabemos. E muita gente nem sabe que é. Ou seja, mesmo que você não tenha problema nenhum com a sexualidade do ouro. Tenta deixar isso claro na sua forma de tratar sobre o mundo. Caso contrário sem querer, estamos juntando nosso silencio ao grito dos que se opõe a liberdade do outro. 

- Depressão é coisa seríssima. A gente tende a levar a sério depois que a pessoa se mata.. e tem muita gente se matando ou pensando em se matar. Nenhum problema é pequeno demais, nenhuma tristeza é frescura. Sentimento é sentimento. Então mais empatia, e cuidado com as pessoas que estão ao nosso redor e com a gente.  


Por fim, penso que a liberdade do outro está tanto nele lutar por esse espaço como em nós fazermos o possível para que esse espaço exista e seja naturalizado na sociedade. É um absurdo que simplesmente existir seja uma forma de resistência para tantas pessoas. E se tudo que eu escrevi parece ser um pouco demais, para para pensar se você também não tá se lascando todo ou toda nessa sociedade em que vivemos. E pensa se isso não te dá energia p mudar.

Ass,
Uma mulher que no último ano, chorou por causa de política, teve depressão, pensou em se matar, encarou que foi abusada sexualmente entre os 7 e 8 anos de idade e que casada há 10 anos com um homem recentemente se assumiu bisexual e segue descobrindo coisas e questionando o padrão doentio de normalidade do nosso mundo. E que sabe que é apenas mais uma dentre milhares.

Ufa! Já tá na hora de virar esse ano....

















quinta-feira, 27 de junho de 2019

Bicoolismo

Fonte desconhecida
No vídeo sobre bissexualidade no Ted Misty Gedlinske diz que pessoas bissexuais, entre outras coisas, tem grande propensão ao abuso de álcool.

E hoje, ao deitar na cama estava pensando em como quando eu bebia na adolescência e início da fase adulta eu bebia de perder o controle. Isso sempre foi uma questão séria na minha vida. Eu tinha amnésia alcóolica com bastante frequência. Passava mal em qualquer lugar. Ficava louca. Ao contrário do geral, que é começar rápido e ir diminuindo a quantidade. Quanto mais eu bebia, mais eu queria beber. O excesso. E é claro que não foi sempre pela mesma razão. Mas me doeu fundo perceber que bebi muito para ter coragem de flertar com meninas. 

Naquela janelinha minúscula que aparecia de vez em nunca, em um show com aquela amiga gay ou em uma festa enquanto os outros não estavam por perto. Tinha que escanear o espaço com a velocidade da luz para não dar na cara que eu estava querendo flertar com uma mulher. E quando achasse alguém que achava que era gay, vinha a vergonha o medo a insegurança. Mas nada comparado ao que eu sentia em relação aos meninos. Aliás com meninos sempre fui a senhora segurança. Era um medo de ser quem eu era. Vergonha dos meus pensamentos - nada no sentido religioso - mas um desconcerto comigo mesma. Uma sensação de que eu tinha que esconder aquilo a todo custo mas o troço queria sair de mim de qualquer jeito. Um desejo incontrolável (imagina a mente de uma adolescente de 17 anos que vive em um relacionamento sério com o chuveirinho... exatamente). Mas eu não era gay! E isso eu sabia porque gostava muito de garotos. Então como podia estar com tanto desejo por gurias? Precisava fazer escondido, ou melhor, conseguir arranjar um jeito de chegar à uma situação na qual me fosse possível flertar com "segurança". E para isso, como diria um querido tio, "tome cachaça"!

Me doeu muito perceber que isso aconteceu inúmeras vezes. Porque essa janelinha não acontecia na escola, ela não acontecia no cursinho de inglês, na praia com o grupo da escola, naquela troca de olhares no ônibus... nesses momentos eu era sempre hétero. E nem sofria por isso. Aquela era a eu real. A outra ficava adormecida. Mas às vezes... ela resolvia voltar. Já tive cada crush! Certa vez fiz um curso de dois meses. O que era aquela aquela mulher!? Eu tinha problemas de concentração. Ela era linda e inteligente. Eu me sentia super intimidada por ela. Quando eu trocava duas palavras tipo dizer "tchau" e receber de volta um "tchau" de volta, eu ficava com um misto de "será que ela percebeu?" e êxtase! De qualquer forma ela não era gay. Aliás isso é outra bosta que dificulta horrores. Se vc não sabe nem o que você é. Como é que vai saber quem é o quê?!?!

MAs estou feliz que chorei por ter percebido uma raiz profunda responsável pela minha péssima relação com o álcool. Precisava dessa catarse. E junto com isso veio uma necessidade urgente de entender tudo isso. De estudar sobre e entender porque a bissexualidade como uma forma de ser 100% eu mesma, só está surgindo na minha vida agora. Como isso passou despercebido por mim? Eu, que tenho dentre minhas melhores amigas, mulheres lésbicas. Inclusive tive crush numa delas quando era adolescente... (ãhn?! É eu sei...)

Enfim, para muitos pode parecer óbvio. Mas para mim não foi, e agora que é, estou assustada com como eu achava que era livre e na verdade me negava uma parte enorme de mim diariamente. E como isso me fazia mal e afetou minha forma de estar no mundo de cuidar de mim mesma e as consequência negativas de comportamentos altamente destrutivos não só para mim como para amigos e familiares. Parte de mim está feliz e outra com sangue nos olhos. Quantos porres, crises de ansiedade, noites mal dormidas, medo de falar, frustração e vergonha de algo dentro de mim que eu não sabia bem o que era. 

Estou em uma situação privilegiada, e sei que assim como eu existem muitas pessoas. Mas se agente não se descobrir não podemos nem enfrentar a sociedade com a nossa verdade.
Então pensa, veja vídeos, leia. Se você sentiu ou sente desejo por ambos os sexos, se permita. Porque é uma falsa ideia a de que estamos seguros ao amar só o sexo oposto. Nossa segurança e a segurança das pessoas a nossa volta está na nossa coragem em ser diverso, ser nós mesmos e a luta é longa, mas é linda! 




Vídeo: Bisexuality: The Invisible Letter "B" | Misty Gedlinske

domingo, 14 de abril de 2019

13 de Abril (Gratidão - continuar)



Canso de ir dormir e ai pensar em coisas muito maneiras para escrever aqui. Uma vez pensei um conto erótico em qe descrevi um cena de sex de me deixar molhada na hora so de pensar. Ia ser um belo texto (ou pelo menos era na minha cabeça). Mas eu estava deitada longe do pc.... não ia rolar.
Talvez ja escrevi mentalmente sobre outras coisas, meio brochante isso. O povo agora tira foto de tudo, se eu pudesse eu teria tudo escrito. Mas quem vai escrever? Eu ate que consigo escrever mas nao todo dia, não é absolutamente vital. Ai eu perco o fio da meada. Os ultimos dois dias por exemplo. Nem precisa tudo isso, eu queria so ter uma fita do dia de ontem dia 13 de Abril. Que dia na minha vida! QUE DIA! Foi tão intenso, satisfatório, divertido e poderoso. Eu me senti ótima! 
Me senti grata. Gratidão!! Como eu estava com saudades de me sentir grata, de verdade, daquela gratidão que a gente sente na maneira como respira. Aquele respiro fundo como se a gente estivesse se alimentando de vida. Ser grato a gente pode ser o tempo todo mas aquele momento onde a gente se percebe grato ahhh é bom demais.
As vezes eu me sinto muito grata quando vejo um bebê. 
Quando eu passo em uma parte do lago e vejo as arvores.
Quando eu olho pro rosto do meu par.
Quando volto a noite pelo lago.
Quando vou de bicicleta para algum lugar.
E são varios para cada pessoa. Meu problema é que eu não sentia isso há muito tempo. Muito muito tempo. Eu não sorria mais. Eu não queria conversar com ninguém. Eu estava desesperadoramente confusa e muito muito triste. Uma tristeza que doía meu coração. Por isso minha alegria e alívio em conseguir sentir gratidão. 

Nesse dia o Be estava voajando, eu tonha a casa inteora so para mim. Me preparei para isso, para usar o espaço para ser. Eu estava muito deprimida e com medo de tudo e resolvi criar uma zona de confroto e um espaço de prazer. Meu plano era encher a banheira, colocar umas velas no banheiro, 












quinta-feira, 7 de março de 2019

Sai morte, que eu não sou forte

Ando muito preocupada comigo mesma. Há um tempinho que me vejo pensando que estou só esperando isso aqui acabar. Isso aqui a vida. Complicado ter tido e ainda ter tudo na vida e estar mal com a vida. Porque em cima de tudo que eu vou dizer, ainda vem a culpa. Moro fora em um dos melhores países do mundo para se viver. Tenho um marido que é meu melhor amigo, parceiro, amante, me acolhe, me sustenta, busca me entender e está comigo para tudo o que der e vier. Meus pais me amam, cada um nos seus ciclos e bagunças familiares mas me apoiaram a vida toda. Tenho uma avó que sou apaixonada e que me ama muito também. Amigos, esses tenho muitos foram muitas relações construídas ao longo de anos. Sempre fui faladeira e simpática. Isso trás muita gente para perto. E estou construindo a minha empresa. Já tenho há quatro anos. Mas no inicio estacionei em uma zona de conforto e fiquei por ali. Depois me mudei e durante um ano não fiz quase nada. Tentar me adaptar aqui tomava tempo suficiente. Com um ano e meio estando aqui eu resolvi dar uma guinada. Mas tudo sempre embalado de mil pensamentos, de medos, de preocupações. Não sei onde aprendi a me preocupar tanto com as coisas. Talvez já tenha vindo dentro de mim. Tipo presentinho maldito do universo. E ultimamente tem estado muito ruim, ontem procurei no google sobre tipos de depressão. Sei que olhar no google não é boa ideia, mas perguntar para a alguém que não seja um médico é pior ainda. Vou causar pânico dependendo da pessoa.
Uma amiga minha se matou, mais nova do que eu. Tomou um monte de remédios e "tchau mundo imundo". Me impactou, uma das pessoas mais inteligentes academicamente que eu conhecia, morando fora, fazendo doutorado.... Não aguentou a pressão que ela mesma se colocava. E decidiu que queria que parasse, queria dar um fim. E deu.
me preocupo comigo porque vejo minha avó e sinto inveja. Inveja dela não precisar mais se esforçar tanto para viver. Não precisa ter filhos, não precisa ganhar dinheiro através do trabalho, não precisa fazer mais porra nenhuma. Na teoria tudo é lucro. E mesmo assim ela viaja, e fala com pessoas o tempo todo, e visita amigos e netos, faz festa, toca seus instrumentos musicais....
Quem sou eu para desistir?! Quem sou eu para achar isso aqui muito difícil?! Quem sou eu?!?!
Acho que meu cérebro veio quebrado. Penso muito mas não consigo assimilar todos os pensamentos. Me preocupo muito mas não consigo achar solução para as preocupações. Quero algo simples, mas meu simples é sempre complexo!

E ai sofro. Muito.

Penso na minha amiga e lembro que na hora que ela tirou a própria vida uma das primeiras coisas que me veio na cabeça foi "pode isso?" "tá liberado?". Percebo hoje que a consequência de se fazer isso é dor e esquecimento. Ninguém quer lembrar de alguém que fez o indizível. A vida dela agora está indistintamente ligada à sua morte. Diferente se fosse um acidente ou doença. Mas a escolha de tirar a própria vida de certa forma, redefine a sua vida. E eu NUNCA faria isso com o meu parceiro. Nunca! Além disso não quero ser lembrada como ela. Com dor, falta de entendimento, como um apagão no tempo. Mas nada disso muda o fato que também já pensei que queria parar tudo. Que se a cabeça não pára, eu posso parar o corpo. Mas resisto. Meu cérebro dramático e sem freio fala dessas coisas com naturalidade demais. Me sinto tão mal de falar sobre isso com meu parceiro. Mas quando vejo já falei. Já falei e não tem volta. Já falei e fico imaginando que agora isso mora dentro dele. Que agora ele também tem medo por mim. Que ele anda pisando em ovos comigo, que ele não sabe o que me dizer ou como dizer. É uma merda.
E já que isso eu não faria, eu fico com inveja de quem já viveu tanto que pode ir sem causar tanto frisson. Apesar de que quando minha avó se for vai ser.... nem sei. Vai ser muito muito muito ruim.
No momento não vejo muito o que fazer.Estava tão animada com a minha empresa com as suas possibilidades com novas ideias. mas não vejo caminho, não vejo isso dando certo de verdade, não sei o que devo fazer nem como devo fazer. Não entendo nada de montar uma marca, definir público alvo, acertar finanças, fazer exportação, e a ideia de fazer tudo isso em um país estranho que não falo a língua, sem amigos, ou família e com a ideia insana de ter filhos me enlouquece, me desespera me da vontade de parar tudo e me esconder e deixar o mundo girar umas mil vezes e só sair do buraco muito tempo depois.

Para mim são tempos muito difíceis. Estou exausta de mim. 

segunda-feira, 4 de março de 2019

"O objetivo da vida é ser feliz"

Ausência de felicidade e infelicidade não são a mesma coisa. Seja pelas palavras serem parceiras (felicidade e infelicidade) ou por qualquer outra razão (simmm pasmem podem, e normalmente existem, muitas razões para uma coisa ser ou acontecer) a gente acabou criando a ideia de que qualquer coisa que não é felicidade é algo ruim e que não deveria estar acontecendo ou sendo vivido e sentido por nós. A não ser é claro se estiver no lado dos pensamentos positivos.... o que também não faz sentido visto que euforia e felicidade, por exemplo, são coisas diferentes. 
O me leva a querer esculhambar o idiota que inventou que "o objetivo da vida é ser feliz". Que porra é essa?!? É claro que estou sendo muito simplista quando digo que "a" pessoa que "decidiu".
Mas isso não muda o fato de que uma grande parte da população que de alguma forma se conecta com a minha vida seja por nacionalidade, tipo de trabalho, crenças religiosas e pessoais, acredita nisso. E o que vejo, em mim e em muitos é uma grande angústia e falta de amor próprio que tem como um de seus gatilhos justamente essa porcaria de objetivo de felicidade absoluta. 
Entendo que para algumas filosofias, como a que sigo, a ideia de felicidade absoluta está ligada a saber lidar com as intempéries da vida. "A dor é inevitável, o sofrimento é opcional" linda frase, mas a gente tem que estar muito bem conosco mesmo e com as fortalezas do coração e da alma bem sedimentadas para conseguir não sofrer diante da dor.

No momento não sinto dor, mas estou sofrendo. O porquê disso me é muito difícil de entender. Mas vem de um grande medo de não conseguir, junto com um grande medo de errar, salpicado de desespero de estar tão atrás nas coisas que quero conquistar, coroado com a agonia de ter que aprender tudo novo e de alguma forma com esse "novo" conseguir fazer as coisas que quero conquistar darem certo. E volta ao primeiro módulo do ciclo vicioso... 
É tragicômico. Sou super cri cri, detalhista. Isso deveria ser um céu para alguém que tem o próprio negócio. Mas não, justamente por ser detalhista não consigo me alçar na "big picture". Claro, tenho sonhos grandiosos. Trabalhar com muitas pessoas, ter um sistema que gira quase sozinho... mas quanto mais vejo e pesquiso, mais me desespero. E isso já está acontecendo há algumas semanas.
Um passo de cada vez, um dia de cada vez, uma frase de cada vez..... exaustivo e triste ao mesmo tempo. Triste porque com tanta possibilidade fico presa na dificuldade. "As pessoas bem sucedidas são aquelas que conseguem transpor a dificuldade." Ai meu caceta! E não para nunca?! 
E no meio de tudo isso vem a porra da culpa. Tem gente lutando pelo pão de cada dia, pelo direito de ser e estar. Machismo, racismo, homofobia, idiotice,... tudo isso aí banhando de lama venenosa gente boa que usa toda sua energia e mais um pouco para lidar com essas merdas o dia todo e ainda fazer o do dia a dia. Mas ai convenhamos, o que que estou dizendo? Que eu queria sofrer de todas essas coisas para então poder sofrer pelas que de fato me acometem? Ou que meus medos e problemas sao menos importantes do que os de outras pessoas?! Essa parte acho que de fato merece atenção porque apesar de meus problemas terem 100% de impacto em mim, eles são menores do que o de várias pessoas... mas porque isso não diminui minha sensação? Porque isso não melhora as coisas? 

Já faz algumas semanas que vivo numa balança que não se equilibra. Meu emocional tem estado em estado de alerta. Passei o sábado entre falar sobre todas as circunstancias que me rodeiam que não consigo não pensar nelas, e chorar. Daí respirava conseguia acalmar meus ânimos e andava e algum outro pensamento surgia e eu falava e depois chorava. Chorei no restaurante, chorei na rua, chorei em casa, que desespero real! Não que eu ache que o ato de chorar deva carregar um peso muito grande. Para mim chorar é normal. Chorar não significa sofrer, significa sentir. Meu corpo sente muito nas suas lágrimas, que no comparativo comigo mesma, poucas vezes são de tristeza. Normalmente é desespero (com pensamentos obsessivos ou angustias intermináveis que o coração e o cérebro se juntam para desenvolver) ou emoção. Receber amor por exemplo me faz chorar muito. O que na verdade nunca entendi, já que sempre recebi muito amor. Mas acho que também de alguma forma fui educada a achar que não merecia esse amor. E isso é uma questão complicada. O que nos faz merecedores do amor alheio? Porque ele é tão importante? Será que meu medo de errar e minhas angustias estão ligadas de alguma forma à maneira com que vejo o amor entre pessoas?
Vixi! Ficou cafuzo. E no entanto, faz um certo sentido para mim.. 
Me pergunto se escrever me deixa mais forte? Se pensar no assunto diminui sua intensidade? Se investir todo dia um pouco do meu tempo, não faz o meu projeto mais perto de se tornar real? Se um pouco nos dias difíceis basta? Se vou de fato conseguir transpor meus medos? Se preciso transpor meus medos para ser corajosa, ou se coragem depende de ação e não ausência de medo?
Depois de tudo isso me resta uma última pergunta: o que fazer da tal frase "o objetivo da vida é ser feliz"?







quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Matar para se tornar

"You gotta kill the person you were born to be, in order to become the person you want to be."

Acho que para o dia de hoje, nada mais oportuno de se ler. Porque desde ontem estou com ansiedade por causa de um email sobre uma questão de trabalho, que na verdade eu que decido o que quero fazer, mas deixo que a falta de simpatia da pessoa com quem tenho que lidar determine como devo me sentir. Sei que posso perder coisas, são decisões... mas hajo como se essa perda fosse ser enorme e nessa brincadeira fico sendo vítima dos meus medos e deixando outras pessoas acessarem meus medos e inseguranças. E elas nem sabem que tem esse efeito todo.... se soubessem eu tava fodida, e não daquele jeito gostosinho que a gente goza no final... 

E nessa cansativa brincadeira de me desmanchar com facilidade a cada intempérie que me aparece, eu me distancio de ser quem eu quero ser. E fico presa nessa "eu" que em nada se parece com a "Eu" que de fato quero ser. Mas que doido! Mas que merda! Mas que saco! Esses sentimentos que abraçam a lógica e a sensatez com tanta força que elas ficam sem ar. E só sobra o sentimento ruim e um resto de consciência  tentando averiguar a situação e avaliar tudo o mais rápido possível, para que aquele sofrimento que me levou a dormir novamente, apenas duas horas depois de levantar de manhã ( e ter tomado banho!) não se repita. E cá estou eu, com uma tremenda dificuldade de focar minhas energias (vide eu estar escrevendo esse texto no momento de trabalho). Exausta só de pensar em todas as decisões que preciso tomar e pensando no bendito email que vou receber em resposta à minha tentativa de negociar com terceiros coisas que podem afetar a vida financeira da minha ainda embrionária empresa. Isso porque a empresa já tem quatro anos. Mas, como abri sem saber de nada e durante muito tempo fui sendo levada pelos ocorridos positivos, acreditando e creditando meu sucesso ao acaso... fui me conformando com o que tinha e com o medo de correr atras e falhar, e acabei estacionando. Coisa de gente privilegiada... sei disso. Mas é isso, a possibilidade desse comodismo faz parte da minha realidade hoje em dia. E estou trabalhando para matá-lo mas ele vem com o encarar de medos e renovar posturas. 

"Mas tudo certo!"- diz ela para si mesma tentando acreditar em si.

De qualquer forma agora estou mexendo em tudo, mais uma vez, e a mudança precisa ser severa, profunda e efetiva. Porque para a quantidade de decisões que preciso tomar, se eu ficar vagando sem saber para onde quero ir, vou parar no mesmo lugar que estava antes... mas dessa vez com um discurso de derrota e não de inércia. Preciso parar de viver com medo e esse é meu ticket! Meu trabalho é o caminho para tudo aquilo que nesse momento eu quero conseguir. Independência, autonomia, poder de decisão, dinheiro entrando na minha conta, sucesso profissional, fazer minha tatuagem de fêmea lutadora e usar com orgulho! E se eu ficar com medo das pessoas que precisam fazer parte disso, não vai dar certo. Ao invés disso devo vê-las como veículos de oportunidade seja de crescimento emocional, profissional ou financeiro. 
Então depois de escrever tudo isso percebo que de fato não há melhor hora do que o agora, para matar a pessoa que você nasceu para ser em prol do nascimento da pessoa que você quer ser. Veremos que consigo fazer isso sem ser no estilo "death by a thousend cuts.


Vidro de aquário

Conversando com uma amiga sobre se engajar mais em um projeto social, ela me disse "eu quero fazer mais do que só falar". Se quere...