sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Ciclo

Meu ciclo está se fechando para um novo começar..

E não bastasse ter nascido inquieta, essa inquietação tem aumentado nos últimos dias. Não sei se é a chegada do aniversário, não sei se é o acúmulo de situações, sentimentos, pensamentos e informação.... só sei que a cada dia sinto que tenho mais a dizer. E converso muito com pessoas ao meu redor, o tipo de papo que gosto, olho no olho ou e mail por e mail. Me expressar publicamente sem saber quem é esse "público", me faz mal. Na  tentativa de trazer um pouco daquilo que eu acredito ou questiono já virei "presa fácil" para aquele que eu acreditava ser um amigo me tratar com total falta de respeito e empatia, ou para um estranho fazer afirmações infundadas sobre mim... e isso me fez mal, me irritou e me angustiou. Por isso, sempre admirei muito quem tem a coragem de colocar em posts aquilo que pensa. Vejo, em sua esmagadora maioria, mulheres colocando suas lutas e buscas de forma pública. Hoje sei que apoiar essa forma de se expressar já é um posicionamento, e que eu devo buscar ampliar o meu espaço de luta ao invés de tentar lutar como os outros. Além disso, escrever de forma sucinta me é uma tarefa quase impossível, logo, o que eu penso dificilmente cabe num post...

Bom, com ciclo se fechando parece mais é que mais caminhos se abrem. Mais questionamentos, mais dúvidas e em algumas esferas, mais conhecimento e mais certezas. Uma delas é a de que tem muita coisa boa nesse mundo mas ele também está muito, muito errado. E essa certeza vem de coisas que ouço, observo e hoje, muitas que vivo. Esse ano foi sem sombra de dúvidas o mais complexo, difícil, educativo e intenso que já vivi. 

Desde sempre me julgo muito. Ansiedade, medo do que o outro pensa, medo do que eu penso sobre o que acho que o outro pensa de mim (tem gente que vai entender isso)... Valores, família, cultura, sociedade, preconceitos, religião, relacionamento. E de repente mudou tudo! Ou melhor, me mudei, fisicamente, para o outro lado do mundo. E aí encontro de família vira facetime. Papo com amigos se tornam mensagens de whattsapp. A sociedade é outra com outras questões. A cultura vira um exercício diário de se adaptar e aprender sobre. Preconceitos mudam de formato e você passa a perceber melhor os seus ao criticar os preconceitos absurdos dos outros. E por aí vai, ou está indo... Tudo mudou ao meu redor. E junto com tanta mudança de cunho pessoal veio também o choro pela política do Brasil, pela escolha consciente (não faltaram conversas, avisos e pedidos de revisão de crenças políticas baseadas em fatos!) de tantos conhecidos, amigos e familiares. Que nadando num mar de individualismo deram força aos seus medos e/ou preconceitos e colocaram nosso país na situação que está. Como lidar com isso? Tanto amor e tanta raiva e ressentimentos misturados e intensificados pela distância física. Justamente essa que faz uma conversa sobre política, por telefone, trazer o risco do fim de uma amizade ou meses sem se falar novamente.

O fato é que no último ano tomei uma surra de mim mesma. Uma surra de vara de marmelo de ter que encarar meus medos, anseios, vontades, raivas, e inseguranças se quisesse me sentir bem e saudável novamente. 

E hoje, apesar de todo o receio, quero falar, preciso falar.

Por que falar de política é assunto delicado. Sobre suicídio é assunto pesado. Depressão é frescura. Sexualidade é tabu. Feminismo é mimimi. Racismo, "não existe".
E nessa de não incomodar o espaço do outro, ou tentar salvar nossas relações a gente não discute. e não troca com quem discorda da gente. Ou melhor faz isso mas já chega brigando e acusando. Para mim, o lugar dessas conversas continua não sendo na internet. Porque me faz muito mal de formas que eu sei que não me são saudáveis. E por isso mesmo, busco conversas reais quando estou com as pessoas e tenho tido trocas intensas e lindas nessa minha militância de buscar ser um exemplo das coisas que acredito. Erro horrores. Mas também acerto. E acho que esse é o melhor que posso fazer até ficar mais forte e melhor na retórica.

Mas por hoje quero dizer algumas coisas que acho e outras que sei sobre esse mundo nesse momento. 

- Feminismo é necessário. Através dele mulheres estão se abrindo umas com as outras e questionando e conversando sobre diversos assuntos importantíssimos. Entre eles relacionamento abusivo, finanças, sexualidade, maternidade real (inclusive de não gostar de ser mãe), orgasmo, mercado de trabalho, racismo, padrão de beleza, saúde mental, saúde física, abuso sexual, políticas públicas... 
Ah mas te seus problemas.... claro que tem! Mas tem muito mais sororidade, apoio, amizade e principalmente busca por soluções. Não somos uma massa organizada com uma mentora mestra que nos diz o que fazer e como fazer. Somos seres pensantes que estão questionando os padrões que de alguma forma oprimem nossa existência e a de outros. E essa troca é fundamental para nosso crescimento como sociedade. Então apenas para de ser ignorante por opção e se não quiser ajudar, pelo menos não atrapalhe.

- Você conhece muito mais mulheres e homens que já foram abusados sexualmente do que você imagina. Seja na infância, adolescência ou adulto. Lembrando que abuso sexual não é só estupro.
"Ah eu saberia" Não! Não saberia, essa não é uma conversa que pais nem filhos são educados a ter. E precisamos mudar isso urgentemente. 

- Racismo existe. E culpa branca também, eu já senti muito essa culpa como se todos os problemas do racismo fossem meus por ser branca (também conhecido como arrogância...), mas percebi que o que eu tinha era medo de falar e agir (aquele eterno medo de errar). Até porque já falei merda achando que estava falando algo bom... e até hoje carrego minhas palavras com profunda vergonha. Então converse com seus amigos negros (e se não tem, se questione sobre isso). A gente precisa parar de ter medo de se posicionar, mas para isso precisamos saber como nos posicionar. E consuma material de pessoas negras, apoie empresas de pessoas negras, escute suas questões e deixe sua vivencia do lado de fora quando for ouvir. Porque vai ter muita coisa ruim sendo dita sobre pessoas brancas... e eles estarão falando a verdade deles, então aceita e busca mudar a você ou o mundo a sua volta. O incomodo de se sentir atacado pela narrativa do outro é infinitamente menos importante do que a vida do outro correr risco diário simplesmente por existir. 

- Tem muito mais gente gay, lésbica, bi, trans, queer a nossa volta do que nós sabemos. E muita gente nem sabe que é. Ou seja, mesmo que você não tenha problema nenhum com a sexualidade do ouro. Tenta deixar isso claro na sua forma de tratar sobre o mundo. Caso contrário sem querer, estamos juntando nosso silencio ao grito dos que se opõe a liberdade do outro. 

- Depressão é coisa seríssima. A gente tende a levar a sério depois que a pessoa se mata.. e tem muita gente se matando ou pensando em se matar. Nenhum problema é pequeno demais, nenhuma tristeza é frescura. Sentimento é sentimento. Então mais empatia, e cuidado com as pessoas que estão ao nosso redor e com a gente.  


Por fim, penso que a liberdade do outro está tanto nele lutar por esse espaço como em nós fazermos o possível para que esse espaço exista e seja naturalizado na sociedade. É um absurdo que simplesmente existir seja uma forma de resistência para tantas pessoas. E se tudo que eu escrevi parece ser um pouco demais, para para pensar se você também não tá se lascando todo ou toda nessa sociedade em que vivemos. E pensa se isso não te dá energia p mudar.

Ass,
Uma mulher que no último ano, chorou por causa de política, teve depressão, pensou em se matar, encarou que foi abusada sexualmente entre os 7 e 8 anos de idade e que casada há 10 anos com um homem recentemente se assumiu bisexual e segue descobrindo coisas e questionando o padrão doentio de normalidade do nosso mundo. E que sabe que é apenas mais uma dentre milhares.

Ufa! Já tá na hora de virar esse ano....

















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